
Dos limites e possibilidades de ensinar lutas na educação física escolar.
Muitas vezes as lutas estão associadas ao contexto de violência. Isso ocorre porque a violência tornou-se também fonte de consumo! A violência gera audiência de telespectadores, vende produtos e, com isto, gera dinheiro! A violência tornou-se rentável! A mídia é um dos principais veículos de associação entre a luta e a violência, o que não quer dizer também que não haja outros motivos para deturpação da verdadeira essência das lutas. Muitos adeptos das lutas, por exemplo, utilizam este conhecimento de maneira inadequada e assim, contribuem também para que esta relação entre lutas e violência seja bastante difundida socialmente. Entretanto, acreditamos em uma concepção de luta que num determinado contexto pedagógico, influencia positivamente na formação do caráter e na personalidade dos sujeitos. Pois, mais do que agredir ou ferir, a luta compõe um caminho para atingir a harmonia consigo mesmo, o que representa a idéia de aprender a lutar para não brigar! Embora com muita freqüência se ignorem ou se menosprezem por inteiro estas raízes, a dimensão ética da formação pessoal e do desenvolvimento espiritual constitui a essência do aprendizado de uma luta. Como diz Reid & Croucher (1983) “(...) o surgimento de uma arte marcial não depende somente da prática de certos movimentos e da capacidade de resistir a provações físicas. As artes marciais também têm um conteúdo intelectual e um sistema de valores.” (Reid & Croucher, 1983, p.29).
Outra relação emblemática diz respeito a historicidade das lutas, pois as práticas
corporais trazem consigo a sua história e tendem a carregar os sentidos e significados do seu contexto de origem. Neste sentido, há nas lutas uma memória que está imbricada a necessidade de utilização de técnicas combativas para sobrevivência. Reid & Croucher (1983) atribuem como uma das necessidades das lutas em tempos remotos a guerra entre tribos diferentes, o que significa que a sua finalidade era quase sempre para combates até a morte. Assim, é possível perceber nas lutas a possibilidade de embate físico como forma de sobrepujar o outro, nesse sentido é uma ‘arma’ corporal. Então, se há no contexto histórico das lutas o seu emprego para fins de agressão corporal, qual o impacto dessa historicidade no processo de aprendizado de uma luta na atualidade?
Reid & Croucher (1983) dizem que “séries planejadas de movimentos podem ser
praticadas entre parceiros, mas a verdadeira arte é tão imprevisível e perigosa que não pode ser praticada.” (Reid & Croucher, 1983, p.21). Por isso, temos que pensar como pode ser as lutas na educação física escolar no contexto educacional e ético de nossa época. As lutas compõem parte do cabedal de conhecimentos da cultura corporal que segundo Coletivo de Autores (1992) é o:
(...) acervo de formas de representação do mundo que o homem tem produzido no
decorrer de sua história, exteriorizadas pela expressão corporal: jogos, danças, lutas, exercícios ginásticos, esporte, malabarismo, contorcionismo, mímica e outros, que podem ser identificados como formas de representação simbólica de realidades vividas pelo homem, historicamente criadas e culturalmente desenvolvidas. (grifo nosso) (Coletivo de Autores, 1992, p.38).
Mas de quais lutas estamos discorrendo? A educação física deve tematizar as lutas em um contexto ampliado deste conhecimento ou lidar com as modalidades tais como o judô, jiu-jitsu, esgrima, capoeira etc.? Segundo os PCN’s de educação física (1998): As lutas são disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), mediante técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusões, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa. Caracterizam-se por uma regulamentação específica, a fim de punir atitudes de violência e de deslealdade. Podem ser citados exemplos de lutas desde brincadeiras de cabo-de-guerra e braço-de-ferro até práticas mais complexas da capoeira, do judô e do caratê. (PCN’s, 1998, p.70)
A combinação feita pelos parâmetros curriculares nacionais do conceito de lutas ao de
brincadeira, apesar de imprecisa, infere a necessidade do(a) professor(a) de educação física escolar se apropriar deste conhecimento para além dos aspectos peculiares das lutas definidas como mais complexas.
Segundo Carreiro (2005) não é função da educação física escolar a preparação exímia de lutadores. Da mesma forma, também nos cursos de formação de professores(as) de educação física o que se espera é a preparação para atuação como educador e não como um lutador profissional! Neste sentido, pensamos que a educação física escolar ao tematizar as lutas, precisa necessariamente lidar com esse conhecimento de maneira particular e diferente do que ocorre nos campos específicos dessas práticas. Segundo Carreiro (2005): “(...) as lutas tiveram ao longo da história um desenvolvimento independente do contexto da Educação Física escolar. Assim, é necessário ressignificar as lutas para que elas possam contribuir com os objetivos do componente escolar.” (Carreiro, 2005, p.249).
Alguns apontamentos para a prática pedagógica em lutas. Em nossa proposta, procuramos tematizar teorias e experiências corporais das lutas. Reunimos
elementos pedagógicos que englobam as diversas modalidades de lutas, ou seja, princípios comuns que dizem respeito, por exemplo, ao judô, karatê, kung-fu, tae kwon do, capoeira etc. Assim, sugere-se uma abordagem ampliada de questões pertinentes ao contexto das diferentes lutas tais como a violência, a esportivização, a influência das diferentes mídias etc. No âmbito das técnicas corporais sintetizamos elementos que acreditamos pertencer às diversas lutas de matriz oriental e também a capoeira, prática corporal de origem afro-brasileira.
Apresentamos um quadro que acreditamos sintetizar algumas particularidades das lutas de matriz oriental e da capoeira e que também pode ser utilizado como um elemento norteador do planejamento pedagógico em educação física escolar:
Para além de técnicas corporais específicas por modalidade, buscamos criar e vivenciar relações de oposição ou diálogo corporal que podem ocorrer entre dois ou mais sujeitos, entre o sujeito e outro imaginário ou ainda entre o sujeito e algum elemento ou equipamento. Na capoeira, o diálogo corporal ocorre ritmado por determinada musicalidade, em que se busca a ocupação do espaço vazio do outro através da inversão corporal ou o que Bakthin (2002) denominou de ‘destronamentocarnavalesco’5. De maneira diferente, mas não em completa oposição à capoeira, as lutas de matriz oriental buscam a oposição corporal que normalmente se pauta na busca do equilíbrio, da concentração e de técnicas que visam o contato corporal seja para golpear, agarrar, torcer, imobilizar, deslocar ou projetar o outro. Tais características diversas podem se relacionar com as particularidades históricas e culturais das quais advêm essas práticas, ou seja, a cultura oriental e a cultura afrobrasileira. Afinal, as lutas surgem e manifestam-se segundo parâmetros da sua sociedade, da sua cultura, do seu tempo. Como diz Daolio (2001) “Quando tentamos definir uma certa sociedade com base em seu comportamento corporal, estamos o tempo todo falando de sua cultura, expressa nocorpo e pelo corpo.” (Daolio, 2001, p.32).
É claro que os parâmetros apresentados no quadro não são imutáveis e nem deixam de se
constituir de outras formas... O quadro propõe-se apenas a apresentar alguns princípios que podem contribuir na reflexão a respeito do ensino das lutas para além das técnicas das modalidades específicas. A idéia do quadro é sintetizar uma compreensão das lutas como práticas que possuem princípios comuns e, através disso, buscar uma metodologia que auxilie no déficit de conhecimentos e habilidades específicas de cada modalidade de luta. Também é preciso distinguir as lutas de uma briga. Neste sentido, a noção de harmonia entre os sujeitos é fundamental, pois apesar das lutas proporem a contraposição ou diálogo de forças entre os sujeitos, esta relação é necessariamente permeada de harmonia, caso contrário, se trata mais de uma briga e de um conflito que não tem fins pedagógicos. Logo, não merece ser objeto de transmissão de conhecimento na escola.
Conclusões Provisórias:
Assim, estamos compreendendo que cabe a educação física escolar, como
componente curricular da escola, contribuir para a totalidade da formação humana, a partir daquilo que lhe é específico e peculiar: o ensino da cultura corporal de movimento, expressa hoje, na forma de jogos, esportes, danças, lutas, ginásticas, capoeiras etc.
Acreditamos que há uma lacuna na educação física escolar no que diz respeito ao conhecimento das lutas e que há muito por ser feito nesta relação através do aprimoramento da formação profissional em educação física e da discussão de elementos inerentes ao contexto das lutas e de sua pedagogização no âmbito da educação física escolar. É preciso superar estas resistências, pois as lutas são um patrimônio construído historicamente pelos seres humanos e como diz Forquin (1993), é papel da escola transmitir e perpetuar a experiência humana considerada cultura.
Fonte:Gilbert de Oliveira Santos, Congresso Paulistano de Educação Física Escolar, 2009.
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